João, o discípulo amado: o homem que pediu fogo do céu
João, o discípulo amado, quis queimar uma aldeia samaritana. Anos depois ele voltou a Samaria, e o que desceu do céu dessa vez foi outra coisa.
10/1/202610 min read
Quando alguém fala do apóstolo João, a imagem que vem primeiro é a do discípulo encostado no peito de Jesus. Sereno, manso, o apóstolo do amor.
Só que o João que os Evangelhos apresentam no começo é outro homem. Leia isto com calma:
"E quando os seus discípulos, Tiago e João, viram isso, eles disseram: Senhor, queres que ordenemos que desça fogo do céu para os consumir, assim como fez Elias?"
Lucas 9.54
Uma aldeia de samaritanos fechou a porta para Jesus, e João quis queimar a aldeia inteira. Com gente dentro. O velho sentado na porta, a criança brincando no chão, a mulher que estava cozinhando.
Eu gosto de começar por aqui, porque essa é a história de um homem que Jesus não descartou.
Um pescador que largou o negócio da família
João era filho de Zebedeu e irmão de Tiago, pescadores do mar da Galileia. Marcos registra um detalhe que costuma passar despercebido: quando Jesus chamou os dois, eles deixaram o pai "no barco com os servos assalariados" (Marcos 1.20).


Redes de pesca sobre um barco na margem do mar da Galileia. Ilustração.
Zebedeu tinha empregados. Barco próprio e gente para pagar no fim da semana: os comentaristas veem aqui uma família de posses, bem acima do pescador comum. João largou uma empresa que um dia seria dele.
Há outros sinais desse dinheiro. A mãe dos dois estava entre as mulheres que seguiam Jesus desde a Galileia e "o serviam" (Marcos 15.41), e Lucas diz como elas serviam: "com os seus bens" (Lucas 8.3). A mãe de João ajudava a sustentar o ministério de Jesus. E na noite da prisão, um discípulo sem nome entra no palácio do sumo sacerdote porque "era conhecido do sumo sacerdote", e ainda faz Pedro entrar (João 18.15-16). A maioria dos estudiosos entende que era João: um pescador da Galileia com porta aberta na casa do homem mais poderoso de Jerusalém. Há quem sugira que Zebedeu vendia peixe para aquela casa. Ninguém sabe ao certo, mas a família tinha contatos.
A mãe, muito provavelmente, se chamava Salomé. Mateus coloca "a mãe dos filhos de Zebedeu" junto à cruz, e Marcos, contando a mesma cena, coloca Salomé no lugar dela. Alguns estudiosos vão além e, comparando com João 19.25, sugerem que Salomé era irmã de Maria, o que faria de João primo de Jesus. É uma reconstrução possível, e eu aviso que é reconstrução: o texto bíblico não afirma isso em lugar nenhum.
Os filhos do trovão
Jesus deu um apelido aos dois irmãos:
"e Tiago, filho de Zebedeu, e João, irmão de Tiago, de sobrenome Boanerges, que significa: Filhos do trovão;"
Marcos 3.17
Os Evangelhos guardam três cenas que explicam muito bem de onde veio esse nome.
O fogo. A aldeia samaritana que não recebeu Jesus. Quem fecha a porta, queima.
O homem de fora. Em Marcos 9.38, João conta, quase orgulhoso, que viram alguém expulsando demônios em nome de Jesus "e nós o proibimos, porque ele não nos segue". Quem não anda com a gente, para.
As cadeiras. Em Marcos 10.37, os dois irmãos pedem: "Concede-nos que na tua glória nós possamos nos assentar, um à tua direita, e o outro à tua esquerda". Os outros dez ficaram indignados, e com razão.
Junte as três cenas e repare no desenho que elas formam: quem fica de fora, quem é dos nossos, quem senta mais perto. João amava Jesus de verdade, o zelo dele era sincero. Só que era um zelo que levantava muro.
E repare em como Jesus responde. Ele repreende, corrige, e continua andando com os dois. O versículo da aldeia termina assim: "E eles foram para outra aldeia" (Lucas 9.56). Jesus seguiu viagem com o homem que tinha acabado de querer matar uma vila inteira. Essa frase pequena, no fim, é a paciência de Deus.
O nome que ele escolheu para si
Tem uma coisa no Evangelho de João que me impressiona toda vez. Ele nunca aparece ali pelo próprio nome. Os "filhos de Zebedeu" são citados uma única vez, de passagem, no último capítulo (João 21.2). No lugar do nome, ele usa outra forma de se referir a si mesmo:
"Ora, achava-se reclinado sobre o peito de Jesus um de seus discípulos, aquele a quem Jesus amava."
João 13.23


Uma mesa baixa com divãs ao redor, como se comia nas ceias do século 1. Ilustração.
Numa ceia daquele tempo ninguém sentava em cadeira. Os convidados ficavam deitados em divãs baixos, apoiados no cotovelo esquerdo, e quem estava ao lado ficava com a cabeça na altura do peito do vizinho. Por isso, quando Pedro quer saber quem é o traidor, faz sinal para João, e João só inclina a cabeça para trás e pergunta baixinho.
Agora pense no caminho que esse homem fez. Ele começou pedindo o lugar de honra ao lado do trono. Terminou escrevendo sobre si mesmo sem nome, sem cargo, sem título, só com a lembrança de ter sido amado. A identidade dele mudou de endereço. Saiu do que ele fazia e foi morar em quem o amava.
A direita e a esquerda
Quando os dois irmãos pediram as cadeiras, Jesus perguntou se eles podiam beber o cálice que Ele ia beber. Eles responderam rápido: "Nós podemos."
Algumas semanas depois, Jesus foi levantado. E Marcos descreve a cena usando exatamente as mesmas palavras do pedido:
"E crucificaram com Ele dois ladrões, um à sua direita, e outro à sua esquerda."
Marcos 15.27
Os lugares que João tinha pedido existiam. Quem ocupou foram dois criminosos. A glória de Jesus tinha forma de cruz, e ninguém disputa lugar numa cruz.
E onde estava João nesse momento? Embaixo, de pé. Os outros tinham fugido.
"Ora, Jesus, vendo ali sua mãe, e ao lado dela o discípulo a quem Ele amava, Ele disse à sua mãe: Mulher, eis o teu filho! Então Ele disse ao discípulo: Eis a tua mãe! E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua própria casa."
João 19.26-27
O homem que queria trono recebeu uma senhora para cuidar. Uma mãe que acabava de ver o filho morrer. Foi isso que Jesus considerou digno de entregar a ele, e João levou para casa naquela mesma hora.
Por que João, e não os irmãos de Jesus? Os comentaristas apontam razões que se somam. A primeira está escrita: "nem seus irmãos acreditavam nele" (João 7.5). A segunda é o parentesco, se Salomé era mesmo irmã de Maria. E a terceira é a que a gente viu lá atrás: João tinha recursos. O texto diz que ele a recebeu "em sua própria casa", e muitos entendem que a família de Zebedeu tinha onde morar em Jerusalém e meios para sustentar uma viúva sem renda. Jesus, morrendo, entregou a mãe a alguém que podia de fato cuidar dela.
Isso me ensina uma coisa sobre o dinheiro. Os filhos de Zebedeu, que um dia pediram os melhores lugares, tinham um conforto que no fim virou o recurso que Jesus usou para proteger a mãe dele. Deus não desperdiçou nem a herança do barco de Zebedeu.
O cálice que os dois beberam
Jesus tinha dito aos irmãos: "De fato, bebereis o cálice que eu bebo" (Marcos 10.39). E cumpriu isso de dois jeitos diferentes.
Tiago foi o primeiro dos doze a morrer pela fé. Atos registra em uma linha só: Herodes "matou Tiago, irmão de João, à espada" (Atos 12.2).


A ilha de Patmos, no mar Egeu, onde João foi exilado. Ilustração.
João, pelo que a história da igreja conta, foi o último dos doze a morrer. Bebeu o cálice devagar, ao longo de uma vida inteira. Perto do fim do governo do imperador Domiciano, por volta do ano 95, ele estava preso numa ilha de pedra no mar Egeu:
"Eu, João, que também sou vosso irmão e companheiro na tribulação e no reino e paciência de Jesus Cristo, estava na ilha que é chamada de Patmos, por causa da palavra de Deus, e do testemunho de Jesus Cristo."
Apocalipse 1.9
Repare em como ele se apresenta: irmão e companheiro. O homem que um dia disputou cadeira com os outros dez agora se coloca do lado, no mesmo nível de quem está lendo a carta.
A volta a Samaria


O caminho de João, da Galileia a Patmos. Mapa ilustrativo, sem escala exata.
Esta é a parte da vida de João que eu mais gosto de contar.
Depois do Pentecostes, Filipe desce a Samaria e prega, e muita gente crê. A notícia chega a Jerusalém, e os apóstolos decidem mandar alguém para lá. Olha quem eles mandam:
"Ora, quando os apóstolos que estavam em Jerusalém, ouviram que Samaria tinha recebido a palavra de Deus, eles enviaram para lá Pedro e João, os quais, tendo descido, oraram por eles para que eles pudessem receber o Espírito Santo; (porque ainda não havia descido sobre nenhum deles, mas somente eram batizados em nome do Senhor Jesus). Então, lhes impuseram as suas mãos, e eles receberam o Espírito Santo."
Atos 8.14-17
Leia de novo, sabendo quem é João. O homem que um dia pediu que descesse fogo do céu sobre os samaritanos desceu a Samaria para orar que descesse sobre eles o Espírito Santo. E desceu.
Lucas ainda acrescenta que, na volta para Jerusalém, os dois "pregaram o evangelho em muitas aldeias dos samaritanos" (Atos 8.25). Aldeia por aldeia. Se uma delas foi aquela que fechou a porta para Jesus, o texto não diz, e eu não vou inventar. Mas são as mesmas palavras, "aldeia dos samaritanos", e eu não acho que isso esteja ali por acaso.
João acabou vendo descer fogo do céu, sim. Era o fogo do Pentecostes, aquele que acende a pessoa por dentro, e agora ele mesmo pedia esse fogo para a gente que ele quis destruir.
O velho de Éfeso
Pela tradição da igreja antiga, João passou os últimos anos em Éfeso, na Ásia Menor, onde escreveu o Evangelho e as cartas. Duas histórias desse tempo chegaram até nós, e eu preciso ser honesto: são tradição, não estão na Bíblia. Conto as duas porque, juntas, mostram o homem por inteiro.
A primeira vem de Jerônimo, uns trezentos anos depois. João, já muito velho, era carregado até a reunião da igreja e só dizia: "Filhinhos, amai-vos uns aos outros". Perguntaram por que repetia sempre a mesma frase, e ele respondeu que aquele era o mandamento do Senhor, e que se só isso fosse feito, já bastava.
A segunda é mais antiga, de Irineu, que a recebeu da geração de Policarpo, discípulo de João. João entrou numa casa de banhos em Éfeso, viu lá dentro Cerinto, um mestre que negava que Jesus tinha vindo em carne, e saiu correndo, mandando todos fugirem antes que o prédio desabasse.
O trovão continuava lá, só que agora apontado para outro lugar. O mesmo homem que escreveu a frase mais terna do Novo Testamento escreveu também uma das mais duras, e as duas estão no mesmo capítulo:
"Amados, amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor."
1 João 4.7-8
"Se um homem diz: Eu amo a Deus, e odeia seu irmão, é mentiroso."
1 João 4.20
O trovão que antes queria queimar samaritano agora troveja contra quem diz que ama a Deus e despreza o irmão.
Para onde aponta o seu trovão
Eu fico com duas perguntas depois de caminhar com João.
A primeira: se você não pudesse usar o seu nome para se apresentar, o que diria? Muita gente se apresentaria pelo que faz, pelo cargo que tem na igreja, pelo ministério, pela história. João escolheu se apresentar pelo amor que recebeu. Ele aprendeu a ordem certa das coisas, e deixou escrito: "Nós o amamos porque Ele primeiro nos amou" (1 João 4.19).
A segunda: para onde aponta o seu trovão? Todo mundo tem uma aldeia que fechou a porta. Pode ser um parente, uma igreja antiga, um ex-amigo, alguém que te humilhou. E a vontade natural é pedir fogo.
Jesus quer pegar essa força e apontar para outro lugar. Talvez a aldeia que você quis ver queimar seja exatamente o lugar para onde Ele vai te mandar orar, com as mãos estendidas, pedindo que desça do céu o mesmo Espírito que um dia desceu sobre você.
Referências
Bíblia
Bíblia King James Fiel 1611. BV Books. Todos os versículos citados neste estudo são desta versão.
Comentário
HENRY, Matthew. Comentário Bíblico de Matthew Henry, edição resumida, tradução de Degmar Ribas Júnior. Rio de Janeiro: CPAD, 2002. Introdução ao Evangelho de João (Éfeso, Patmos e Domiciano) e comentário a João 19.
Fontes antigas (tradição da igreja)
Jerônimo. Comentário à Epístola aos Gálatas, sobre Gálatas 6.10 (o "Filhinhos, amai-vos uns aos outros").
Irineu de Lyon. Contra as Heresias, livro 3, capítulo 3 (João e Cerinto na casa de banhos de Éfeso).
Leituras complementares, em inglês
Zebedee, Powerful Fisherman (Zebedeu, um pescador poderoso). Bible Characters: obscurecharacters.wordpress.com/2019/01/15/zebedee-powerful-fisherman
The Twelve: The Sons of Thunder (Os Doze: os filhos do trovão). Grace Church Greeley: gracegreeley.org/teaching/the-twelve-the-sons-of-thunder
Continue estudando: O que está atrapalhando Deus na sua vida? Marcos 11 e o dia em que Jesus virou as mesas do templo.
Origem Bíblica
Estudos bíblicos fundamentados e regresso ao texto e contexto original no hebraico e grego.
Início-O Livro-Estudos
Atendimento
contato@origembiblica.com
Pr. Thiago A. Ramos — Ministério Origem
© 2026 Origem Bíblica-Ministério Origem. Ensinamento bíblico.
Regresso aos Textos Originais
